Esqueça a balada, o barzinho, o futebol, você tem algo mais importante para fazer primeiro: assistir Narcos, da Netflix

Pablo Escobar foi o rei da cocaína. Até morrer assassinado aos 44 anos em 1993. El Patrón tentou – e quase sempre conseguiu – fazer uma porção de coisas. Da origem paupérrima em Medellín para chances reais de vencer as eleições majoritárias colombianas (e chegou a ocupar um lugar no parlamento do país, mas acabou deposto). Ele adorava discursar “contra os poderosos”. A ascensão e a queda do narco-terrorista é contada em 10 episódios da série Narcos, investimento da Netflix para atingir o mercado latino e, ao mesmo tempo, os Estados Unidos.

Te damos 6 motivos para você largar o que está fazendo, não sair essa noite e curtir uma noite no sofá com uma ótima opção de entretenimento, regada à história e cultura.

1. O Robin Hood era um carniceiro
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Listado na Forbes em 1987 como um dos homens mais ricos do mundo, não eram os raros os eventos em que Escobar reunia a população dos estratos mais carentes de sua cidade para distribuir dinheiro, financiar casas, construir centros de lazer ou botar sua paixão pelo futebol em favor de seus negócios.

Tanto poder vinha dos lucros exorbitantes: naquele período, o quilo da cocaína pura chegava a ser vendido aos EUA por US$ 50 mil. Ele sabia que o populismo podia ser uma arma importante para alçar voos mais altos e conseguir a imunidade política reservada aos parlamentares de seu país. E, olha, a farsa só não se concretizou por um triz.

Mas Escobar só conseguiu chegar lá da maneira menos republicana possível. O “plata o plomo” era real. Atentados à bomba, assassinatos, raptos, estupros, compra de apoio político ficavam por baixo de uma camada social do traficante. Entre as 6 mil vítimas de seu império, entraram agentes do Estado das mais variadas estirpes. A mando de Escobar, o equivalente ao Supremo Tribunal Federal (STF) colombiano foi dizimado. Um ministro da Justiça foi assassinado a tiros.

O ápice do absurdo aconteceria na manhã de 27 de novembro de 1989. O voo HK 1803, da Avianca, teve seu curso interrompido por uma bomba plantada por Escobar e o Cartel de Medellín. O saldo: 107 vítimas. O motivo? O alvo era César Augusto Gaviria Trujillo, candidato à presidência que acabaria eleito seis meses depois.

2. A Guerra às Drogas é uma sujeira sem fim. E todo mundo é bem parecido
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Não há mágica. Para que os americanos afundem as narinas no pó, alguém precisa plantar, processar, produzir e refinar a cocaína. E, não, a proibição pura e simples não fará com que os consumidores e viciados deixem de lado a droga. A única certeza é que alguém vai lucrar – e muito – com a venda ilegal, deixando um rastro enorme de corrupção e corpos pelo caminho. De outro lado, trilhões (sim, é isso mesmo) serão gastos em impostos. Narcos deixa claro que para ser mocinho também é preciso afundar o pé na lama.

Da mesma forma, o óbvio vilão Pablo Escobar é capaz de nutrir sentimentos e ser um cara decente vez por outra. Ao Guardian, Padilha explicou sua ideia. “Os caras bons e os maus têm algo em comum: eles são seres humanos. Seres humanos, que, dependendo do contexto, baixam sua integridade ética para ver o trabalho feito. É assim que acontece na vida real”.

3. A velocidade frenética dos episódios
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A câmera é ágil, o texto é rápido e os acontecimentos se atropelam. Você pode até não se interessar pela história, não criar empatia com nenhum personagem ou não aguentar mais ver montes e montes de cocaína a cada porção de minutos, mas não vai poder dizer que Narcosé entediante. A cada episódio de pouco mais de 55 minutos, a sensação é de perda de fôlego.

A quantidade enorme de personagens e a opção de Padilha por dar a eles carne e osso também são ótimos motivos para respirar fundo e entrar de cabeça na história. Ah, claro, você vai se lembrar de Tropa de Elite, pela violência, pelas torturas com sacos de plástico na cabeça, mas também pelas opções estéticas. Já no primeiro capítulo, Padilha desconstrói e fragmenta a linguagem da história. Nada de carregar o internauta (e telespectador) pela mão. Ainda que tanto sangue e violência possa causar um certo desarranjo estomacal para alguns.

4. Bebeto e Romário do cinema latino-americano
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José Padilha confia cegamente no trabalho de Wagner Moura. Para o papel do narcotraficante, Moura precisou se debruçar sobre a história colombiana, passar um bom tempo em Medellín e superar os problemas do idioma (é o primeiro papel do brasileiro na língua de Cervantes).

5. O fim da síndrome de Scarface
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Você se lembra de Al Pacino e seu tenebroso inglês latin lover no clássico de Brian de Palma, certo? Bem, na série do Netflix isso não existe. Os personagens colombianos ou latinos de outras nacionalidades falam espanhol e usam expressões comuns dentro do famoso Cartel de Medellín. O próprio Wagner Moura tentou ser o mais fiel possível.

Pode parecer pouca coisa, mas tirando os policiais Steve Murphy e Javier Peña, do Drug Enforcement Administration (DEA) americano, e alguns outros poucos personagens secundários, ninguém mais fala inglês. Portanto, os assinantes americanos vão precisar se acostumar às legendas. O jornalista Stephen Marche, da Esquire, explorou o tema numa afiadíssima crítica ao fanfarrão Donald Trump e sua chuva de impropérios aos latinos.

6. A atmosfera Scorsese
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Narcos começa sua narrativa na década de 1970. É ou não é deixa perfeita para embarcar no clima Martin Scorsese? A referência, como assumiu o brasileiro, vem, no entanto, de outro filme de mafiosos do diretor nova-iorquino: Os Bons Companheiros. A narração em primeira pessoa, já bem explorada por Padilha em suas produções anteriores, ficou com o agente da DEA interpretado por Boyd Holbrook. É o policial que guia o telespectador pela selva de cocaína e corpos.

Conta pra gente depois o que achou da série.